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ONU reafirma que indústria de produção animal contribui diretamente ao aquecimento global

Por Vinicius Siqueira

ONU reafirma que indústria de produção animal contribui diretamente ao aquecimento global
O novo relatório da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), “Tackling Climate Change Through Livestock” (Combatendo as Mudanças Climáticas por Meio da Pecuária), reafirma que a produção de animais para consumo humano é um dos fatores com impactos mais devastadores para toda a natureza.

Este relatório vem para colocar em foco os danos aos próprios animais e ao meio ambiente que a indústria de produção animal promove. Considerado como uma intervenção humana antiética, a indústria trata os animais como seres sem valor moral, os cria para serem mortos em um prazo determinado previamente e faz de suas vidas, um período de tortura.

Vegetarianismo contra o Aquecimento Global

Por Paula Schuwenck

Vegetarianismo contra o Aquecimento Global
Atualmente muitas pessoas falam sobre aquecimento global. Infelizmente nem sempre abordado pelos meios de comunicação como deveria. Porém, serei um tanto otimista em dizer que ao menos vem sendo muito mais debatido e que mais pessoas buscam saber o que podem fazer para reduzirem seu impacto.

Podemos afirmar que, ao adotar e praticar a dieta vegetariana, você está colaborando muito. Não é o suficiente. Todos devem estar atentos e pesquisar para, cada vez mais, praticar ações por uma vida sustentável e cautelosa a fim de minimizar seus efeitos maléficos ao clima, mas o vegetarianismo é uma imensa colaboração pela ótica do consumo responsável, ético e consciente.

Dieta vegana contribui para fim dos problemas ambientais

O relatório “Impactos Ambientais de Produção e Consumo”, da ONU, apontou que adotar uma dieta vegana é a principal contribuição que os consumidores de países em desenvolvimento podem dar para o combate aos problemas ambientais do planeta, como escassez de água e aquecimento global

Quando o assunto é resolver ou, pelo menos, minimizar os principais problemas ambientais que, hoje, preocupam todo o mundo, muito se fala em políticas de combate ao desmatamento ou em transição para uma economia de baixo carbono: medidas importantíssimas que dependem, sobretudo, de vontade política. Mas o que os consumidores podem fazer no dia-a-dia para contribuir de verdade com a recuperação do planeta?

Responder a essa pergunta foi o objetivo dos pesquisadores do Pnuma – Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, que produziram o relatório “Impactos Ambientais de Produção e Consumo” e concluíram que mudanças na forma como os habitantes do planeta se alimentam e se locomovem no dia-a-dia podem fazer grande diferença e, até mesmo, definir o futuro da humanidade no século XXI.

De acordo com o estudo, nos países em desenvolvimento, como o Brasil, a atitude dos consumidores que mais prejudica o meio ambiente é o consumo de produtos agropecuários – sobretudo, carne e leite. Sendo assim, o relatório recomenda uma dieta vegana para os habitantes dessas nações e garante que, desta maneira, contribuiríamos para:

– a preservação da água fresca do planeta, já que o setor agropecuário consome cerca de 70% do recurso disponível;
– o fim do uso de fertilizantes e pesticidas, que contaminam, aproximadamente, 40% dos solos da Terra e, também, a água utilizada nas atividades agropecuárias e
– a redução das emissões de gases do efeito estufa, entre outros benefícios.

Já para os consumidores dos países desenvolvidos, a recomendação é outra: de acordo com o relatório, os gastos domésticos de energia representam o maior impacto desses cidadãos no meio ambiente. Por conta disso, o Pnuma sugere que os cidadãos dessas nações reduzam drasticamente o tempo de uso de aparelhos eletrônicos, como computadores, aquecedores e televisores, que representam os principais pontos de consumo energético nas residências.

Apesar das recomendações específicas, os autores do relatório lembram que todos os consumidores devem procurar diminuir o impacto de suas ações em todas as atividades do dia-a-dia: adotando meios de transporte menos poluentes, consumindo produtos que agridam menos o meio ambiente e controlando o uso de água e energia.

Fonte - Publicado em 02.07.2010

O impacto ambiental do consumo de carne. Entrevista especial com Sérgio Greif e depoimento de Sônia Montaño

Apontado como um dos grandes culpados pelo aquecimento global, a pecuária e o consumo de carne estão sendo cada vez mais debatidos por biólogos, vegetarianos e movimentos sociais. Isso porque é preciso que a população, como um todo, saiba que o consumo desenfreado de carne contribui para a devastação da natureza. A indústria de carne é uma das maiores responsáveis pela poluição da água. Somente os animais criados para o consumo humano nos Estados Unidos produzem uma quantidade de excrementos 130 vezes maior do que a de toda a população mundial. Além disso, a pecuária é uma das maiores consumidoras de água. São necessários de 20 mil a 30 mil litros de água para produzir um quilo de carne, mas apenas 150 litros de água para um quilo de trigo. E mais: a criação de animais de corte é responsável por 90% do desmatamento de florestas tropicais.

Sobre este assunto, a IHU On-Line conversou com o biólogo e mestre em nutrição, Sérgio Greif. Adepto do vegetarianismo desde os cinco anos, Greif fala do impacto ambiental que o consumo de carne produz, das dificuldades que passou para tornar-se vegetariano e sobre os direitos dos animais. “Uma adoção em massa do vegetarianismo é a única solução plausível. O problema não deve se resumir à ‘diminuição do consumo de carne’, até porque a carne é apenas um dos problemas relacionados à pecuária”, contou-nos Sérgio, nesta entrevista, que foi realizada por e-mail.

Complementando a entrevista, a IHU On-Line ouviu, também a jornalista e mestre em comunicação, Sônia Montaño. Sônia é uruguaia, um país consumidor contumaz de carne, mas que depois de um retiro, aderiu ao vegetarianismo. A entrevista e o depoimento foram realizados por e-mail.

Confira a entrevista com Sérgio Greif e o depoimento de Sonia Montaño.

IHU On-Line - Quais são os principais pontos de destaque, no que diz respeito ao consumo de carne em relação ao impacto ambiental?

Sérgio Greif - A carne é responsável por grande impacto ambiental. Áreas naturais (florestas, matas, cerrados, campinas etc.) precisam ser devastadas para a abertura de pastos. Muitas pessoas associam a devastação nas florestas tropicais ao corte de madeira. Na verdade, a contribuição das madeireiras para essa devastação nem se compara à devastação causada pela pecuária, pois as madeireiras selecionam apenas as árvores que interessam para o corte. Já o pecuarista precisa se livrar das árvores indiscriminadamente.

A pecuária sequer é sustentável nesses pastos, pois o gado, com o pisoteio, acaba compactando o solo, impedindo o rebrotamento de plantas e a lixiviação da água. Dessa forma, o solo sofre processos erosivos, o lençol freático deixa de receber importantes contribuições de água, e o solo da superfície acaba sendo arrastados para os corpos hídricos, o que ocasiona em perda de fertilidade e contaminação de águas superficiais. Os pastos abertos logo são abandonados e se transformam em desertos, já que muitas vezes o grau de comprometimento é tal que nem mesmo as florestas conseguem se reestabelecer na área.

A pecuária, quando intensiva, também traz o problema da contaminação por fezes e urina de animais. É que os animais presos sempre fazem suas necessidades no mesmo lugar. Isso contamina o solo e as águas próximas. Esses dejetos raramente são tratados porque implicam em gastos na produção. Outro fator relacionado à poluição é com a geração de gases. Especialmente os ruminantes têm em seu processo digestivo a geração de diversos gases que são expelidos do corpo através da flatulência e da eructação. Esses gases (óxido nítrico, metano etc.) contribuem com o efeito estufa.

Outro fator ambiental relacionado à pecuária diz respeito ao consumo de água. Cada cabeça de gado consome 50 litros de água por dia. Apenas o processo de abate de um bovino consome mais de 1200 litros de água de uma vez. A lavagem de uma única carcaça de frango consome mais de 120 litros de água.

IHU On-Line - Que tipos de soluções o senhor pode apontar para que o consumo da carne seja reduzido no mundo?

Sérgio Greif - Educação. Uma adoção em massa do vegetarianismo é a única solução plausível. O problema não deve se resumir à “diminuição do consumo de carne”, até porque a carne é apenas um dos problemas relacionados à pecuária. A população do mundo deve ser educada a se abster do consumo de todos os tipos de ingredientes de origem animal. A mensagem jamais deve ser para que as pessoas “comam menos carne”. A educação fornecida deve ser completa, de que as pessoas de fato se abstenham de produtos de origem animal. Obviamente, muitas pessoas não se absterão de imediato, mas pelo menos terão recebido a mensagem correta e cada qual trilhará seu caminho na sua velocidade.

IHU On-Line - O senhor é um vegetariano desde os cinco anos de idade. Pode nos contar como foi essa luta, como enfrentar a família e amigos (que não eram vegetarianos) quando tinha tão pouca idade? E como essa luta tornou-se trabalho para o senhor?

Sérgio Greif - Quando adotei o vegetarianismo, eu não conhecia nenhum vegetariano e nem conhecia essa palavra. Simplesmente tomei conhecimento de que a carne era o tecido de animais e, então, embora o gosto me agradasse, decidi que não consumiria mais. A princípio, foi difícil para minha família aceitar, porque na década de 1980 muitos médicos ainda acreditavam que precisávamos de uma quantidade imensa de proteínas para nos desenvolver e manter nossas funções vitais. Minha mãe foi recomendada a esconder carne entre os alimentos e um médico chegou a me mandar comer 500 gramas de queijo branco por dia (uma criança de cinco anos, imagine!). Também precisava tomar um composto manipulado, por recomendação de um endocrinologista.

Obviamente, não fiz nada disso, e então quando fui ao médico, um ou dois anos depois, ele me examinou e perguntou se eu estava tomando o composto. Eu informei que não, e ele reconheceu que eu não teria precisado. Ao longo dos anos, me conscientizei de que, embora naquele momento os médicos fossem autoridades e tivessem ao seu lado a ciência, eles sabiam muito pouco sobre a forma como nosso corpo funciona. A ciência não é absoluta. Surge uma nova pesquisa e então nossas idéias mudam.

Resolvi estudar Nutrição no mestrado porque, embora muitos profissionais de renome defendessem que precisamos nos alimentar de ingredientes de origem animal, eu lia muitos trabalhos que mostravam o contrário. Hoje, vejo que muitos profissionais já mudaram de idéia, mas alguns ainda mantêm a antiga visão.

IHU On-Line – Quais são as principais diferenças entre os direitos dos animais e a vida e o bem-estar dos animais?

Sérgio Greif - Em termos bem simples, alguém que defende que animais têm direitos reconhece que não podemos utilizar animais para quaisquer fins que queiramos utilizá-los. Isso significa que não podemos comer animais, não podemos experimentar em seus corpos, não podemos vestir sua pele e seu couro, não podemos colocá-los para puxar carroças, para nossa diversão ou mantê-los como “brinquedos”. Animais são seres sensíveis e tudo o que fazemos a eles tem o peso daquilo que fazemos a outros seres humanos.

Já alguém que defende o “bem-estar” animal não reconhece que animais possuem direitos. Eles consideram que seres humanos são seres superiores e podem utilizar animais para suas conveniências. Isso significa que podemos comê-los, podemos utilizá-los em pesquisas, podemos matá-los para vestir sua pele e seu couro, podemos submetê-los a trabalhos e podemos possuí-los. Mas eles, ao mesmo tempo, defendem que animais são seres sensíveis e por isso não devemos abusar deles. Assim, eles estabelecem, através de seus próprios conceitos, o que é certo e o que é errado se fazer com um animal. Esses parâmetros não usam o ponto de vista do interesse dos animais, mas sim das pessoas que se sentem agredidas com a visão do que se faz com os animais quando eles são explorados, mas, ao mesmo tempo, não querem tomar nenhuma atitude pessoal para minorar essa exploração.

IHU On-Line - De que forma você propõe o combate à fome a partir do vegetarianismo?

Sérgio Greif - A criação de animais demanda imensas áreas. Mesmo na pecuária intensiva, os animais precisam receber o alimento que foi plantado em grandes extensões de terra. Quando permitirmos aos animais ocuparem tamanha quantidade de terra ou a utilizamos para plantar alimentos que os alimentarão, estamos desviando recursos que, de outra forma, alimentariam seres humanos. Muitas pessoas defendem que isso não é um desvio de recursos porque esses animais são criados para o consumo por seres humanos, mas quando colocamos um intermediário entre nós e os alimentos de origem vegetal, estamos perdendo energia do sistema.

O fluxo de energia ocorre no formato de uma pirâmide. Na base, estão os produtores, os vegetais que são capazes de fazer fotossíntese. No andar seguinte, estão os consumidores primários, que se alimentam desses vegetais. A biomassa, ou seja, a quantidade de matéria viva capaz de subsistir nessa posição, é necessariamente menor do que a do andar abaixo, pois de outra forma haveria fome. Quando a seca se instala em uma região e as plantas morrem, os herbívoros morrem de fome. Num andar acima, nessa pirâmide, estão os consumidores secundários, ou seja, os animais que comem animais. Esses precisam manter uma biomassa necessariamente menor do que a de herbívoros ou de outra forma entram em competição e também morrem de fome.

O que acontece atualmente é que o ser humano quer se posicionar no terceiro andar da pirâmide, no nível de consumidor secundário, tendo os “animais de consumo” no andar abaixo, mas ele, ao mesmo tempo, quer permitir o crescimento indefinido de sua população. Daí as pessoas competirem por recursos, tanta fome etc. A solução que propomos é que a população passe a se alimentar em níveis mais baixos da pirâmide de energia, ou seja, que adotem uma dieta estritamente vegetariana.

IHU On-Line - O senhor concorda com o Programa Fome Zero?

Sérgio Greif - Para concordar com ele eu precisaria entendê-lo. Sou uma pessoa que pensa de uma maneira técnica e não consegui visualizar a técnica que está por trás desse programa. Procurei informações a respeito quando da época das eleições, mas não havia informações sobre isso. Tudo o que havia era que o candidato à Presidência iria acabar com a fome no Brasil, mas não se demonstrou de que forma isso seria realizado.

IHU On-Line - Qual é sua opinião sobre as leis relacionadas aos direitos dos animais no Brasil?

Sérgio Greif - Não existem leis relacionadas aos direitos dos animais no Brasil. As leis que existem são de “bem-estar” animal, e mesmo “bem-estar” precisa ser colocado entre aspas, porque não é bem-estar de fato. Tudo o que temos são leis que estabelecem que o tratamento dado aos animais que submetemos ao nosso jugo devem obedecer a determinadas regras que, no melhor dos casos, amenizam o peso que sentimos em nossa consciência em continuarmos a explorá-los.

As leis que de fato produziram algum efeito positivo para os animais, como a que proíbe a rinha de galo, por exemplo, têm mais relação com a proibição de jogos de azar do que outra coisa. Não é de fato uma preocupação com os galos. De outra forma, galinhada também seria crime. As leis referentes ao tráfico de animais silvestres têm mais relação com o conservacionismo do que com os direitos animais, tanto é que ninguém se importa se uma pessoa comprar um mico-leão para manter em um apartamento, desde que o animal provenha de um criadouro comercial.

IHU On-Line - Certa vez você afirmou que não basta informação para que a conscientização e a mudança de hábitos aconteçam. O que é preciso fazer para que a população diminua o consumo de carne antes que um desastre ambiental catastrófico aconteça?

Sérgio Greif - Eu não me recordo exatamente o contexto em que isso foi dito, mas certamente a informação é apenas um primeiro passo. As pessoas precisam ser sensibilizadas e precisamos deixar de poupar as pessoas, como se elas não fossem parte do problema. Todos nós somos partes do problema. Não adianta, desse modo, tentarmos culpar as madeireiras, o George Bush ou o Mc'Donalds. Nós somos o problema e a solução deve partir de cada um de nós.

Apenas trazer a informação é um pequeno passo, mas a informação tem que se integral e inteligível. “Esse é o problema, essa é a solução.” Simples assim.

IHU On-Line - A saúde das pessoas que comem carne está em perigo?

Sérgio Greif - Muitas pessoas acreditam que a experimentação em animais prejudica os animais, mas que isso beneficia as pessoas. A intenção desse livro é mostrar que, pelo contrário, a experimentação animal traz prejuízos tanto para animais quanto para seres humanos. Apenas se beneficiam os experimentadores e os lobbies que tem interesse na manutenção desse sistema.

IHU On-Line - Além de ser vegetariano, o senhor se mostra radicalmente contra o uso de animais em estudos e em sala de aula. Como foi finalizar sua graduação sem matar um animal?

Sérgio Greif - E quem disse que para a formação de um bom profissional em alguma área da Biologia é necessário matar animais? Isso é algo que foi colocado aí e que todos nós acabamos acreditando, mas de forma alguma isso é verdade.

Confira o depoimento de Sonia Montaño:

O meu depoimento sobre vegetarianismo é despretensioso, já que sou uma “neo-vegetariana”. Tomei a decisão de não me alimentar a partir dos animais aos 39 anos, isto é, dois meses atrás. Comecei a me perguntar sobre isso algum tempo antes, enquanto fazia uma reportagem sobre o tema e entrevistava, para a edição 191 da IHU On-Line (Sônia foi editora da Revista IHU On-Line de 2001 a 2006), com diversas pessoas militantes da causa. Com isso, enxerguei uma porta para pessoas que estão, de alguma forma, se perguntando sempre sobre como viver melhor, como serem mais coerentes com as suas preocupações sociais, mais comprometidas com a sustentabilidade do planeta e, é claro, como serem mais felizes.

Mas ainda estava longe de mudar meus hábitos, já que a correria, o estresse e a urgência por dar conta de um estilo de vida que parece ser obrigatório em nosso mundo ocidental atual me empurravam para aquela alimentação de muita carne, pouco verde, pouca variedade de cores, muito enlatado, e assim por diante. Mas isso tem um limite. Se não somos nós que o damos, o nosso organismo (assim como o planeta) começa a gritar e se comportar de um modo tão estranho que somos obrigados a buscar alternativas. Finalmente, com o que restava de mim desse estilo um tanto suicida de vida, me aproximei de uma espécie de centro vegetarianista, o Instituto Ecumênico Popular L`Amigo, que tinha conhecido através da reportagem.

Estive por dez dias lá. Dias de forte convívio com a natureza (exuberante natureza da Penha, Santa Catarina!) e com uma natureza viva e vivificadora que ingeríamos a cada dia através de alimentos biogênicos (os que geram a vida brotos, germes, grãos) e de uma grande variedade de frutas, verduras e hortaliças, artisticamente preparadas. Quando me perguntam, então, por que sou vegetariana, tenho diversas razões para responder, mas nenhuma delas é definitiva, só o conjunto delas se torna relevante para mim.

Tenho alguns familiares com câncer. Aliás, meu país, Uruguai, é um dos países com maior índice de consumo de carne. O bem-estar que dá comer alimentos vivos é muito grande. É bem diferente encerrar uma refeição “normal” (a base de carne e de mistura de alimentos que apresentam diversas reações negativas e a sensação de satisfação e leveza após um almoço vegan). Descobri que a cultura é muito mais responsável por nossa alimentação do que a natureza. Desde crianças, aprendemos que determinados alimentos são aqueles realmente “gostosos” e desejáveis. Já os “chamados outros” – verduras, hortaliças etc. – são aqueles que, bom... “devemos” comer para ter saúde.

Um outro elemento importante é a vida dos próprios animais e o que as indústrias do agronegócio estão fazendo com eles. Repito que não sou ortodoxa e sempre vai me afetar muito mais profundamente questões como a erradicação do trabalho escravo ou da miséria, por exemplo. Mas usar aquela artificialidade toda para que as galinhas não parem de “produzir”, convenhamos que também não poderia ser catalogado como um ato de extrema humanidade.

Hoje em dia, sou muito mais cuidadosa com o que deixo entrar no meu organismo, entre outras coisas. Isso nos faz mais sensíveis ao cuidado da vida como um todo e nos aumenta a liberdade no meio de um estilo de vida e de uma sociedade bastante programada.

Publicado em 05.11.2007

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos

ONU recomenda dieta vegana para combater mudança climática

Fazenda em Mato GrossoUma mudança global para uma dieta vegana é vital para salvar o mundo da fome, pobreza de combustíveis e os piores impactos da mudança climática, diz um novo relatório da ONU.

A previsão é de que a população mundial chegue a 9.1 bilhões de pessoas em 2050 e o apetite por carne e laticínios é insustentável, diz o relatório do programa ambiental da ONU (UNEP).

A recomendação está seguindo o alerta do ano passado de que uma dieta vegetariana é melhor para o planeta, de Lord Nicholas Stern, ex-conselheiro do governo trabalhista em quesitos de mudança climática. A Dra. Rajendra Pachauri, membro do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU, também pediu que as pessoas considerassem uma dieta livre de carne para diminuir as emissões de carbono.

O documento diz: “As previsões são de que os impactos da agricultura aumentem substancialmente devido ao aumento populacional e maior consumo de produtos de origem animal. Diferente de combustíveis fósseis, aqui é difícil buscar alternativas: as pessoas têm que comer. Uma redução significativa no impacto só seria possível se a dieta global mudasse, livre de qualquer produto animal.”

O professor Edgar Hertwich, principal autor do relatório, disse: “Produtos de origem animal causam mais danos do que produzir materiais de construção, como areia e concreto, plásticos ou metais. A biomassa e produções para alimentar os animais são mais danosas do que queimar combustíveis fósseis.”

Os peritos classificaram produtos, recursos, atividades econômicas e transporte de acordo com seus impactos ambientais. A agricultura estava no mesmo patamar que os combustíveis fósseis pois ambos crescem subitamente a partir do desenvolvimento econômico, eles disseram.

Ernst Von Weizsaecker, um cientista ambiental que contribui com o estudo, disse: “A fartura de alimentos em países desenvolvidos está disparando uma dieta voltada para carnes, ovos e laticínios- porém os animais usados nas três indústrias consomem a maior parte da produção agrícola do mundo e gasta-se para mantê-los uma enorme quantidade de água, fertilizantes e pesticidas.”

A energia e a agricultura precisam ser separadas de nosso crescimento econômico porque os impactos ambientais estão aumentando em 80% devido a uma busca maior por produtos de ambas, segundo o relatório.

Achim Steiner, secretário geral da ONU e diretor executivo da UNEP, disse: “Separar crescimento de danos ambientais é o desafio número um de todos os governos de um mundo em que o número de pessoas cresce exponencialmente, aumentando a demanda consumista e persistindo o desafio de aliviar a miséria e a pobreza.”

O conselho da ONU, que fez uso de diversos estudos incluindo o Millennium Ecosystem Assessment (avaliação do ecosistema no milênio), cita os seguintes tópicos de pressão ambiental como prioridade para os governos do mundo: mudança climática, mudança de habitats, acréscimo de nitrogênio e fósforo a fertilizantes, exploração excessiva dos oceanos e rios por meio da pesca, exploração de florestas e outros recursos, espécies invasoras, poucas fontes de água potável e falta de saneamento básico, exposição ao chumbo, poluição do ar urbano e contaminação por outros metais pesados.

A pecuária, incluindo aqui produção de todos os derivados animais, é responsável pelo consumo de 70% de água fresca do planeta, 38% de uso da terra e 19% da emissão de gases estufa, diz o relatório, que foi liberado para coincidir com o dia Mundial do Meio Ambiente no sábado.

Ano passado, a Organização de Alimentos e Agricultura da ONU (FAO) disse que a produção de alimentos teria de aumentar em 70% para suprir as demandas em 2050. O conselho disse que evoluções na agricultura serão ultrapassadas pelo crescimento populacional.

O professor Hertwich, que é também diretor de um programa de ecologia industrial na Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia, disse que países em desenvolvimento, onde o crescimento populacional é bem maior, não devem seguir os padrões de consumo ocidentais: “Países em desenvolvimento não podem seguir nossos modelos. Mas está em nossas mãos a necessidade de desenvolver tecnologias em, digamos, energia renovável e métodos de irrigação.”

Por Lobo Pasolini e Giovanna Chinelatto

Fonte: ANDA - Publicado em 05.06.2010

Relatório do WWF afirma que mudanças climáticas podem levar ao colapso da Amazônia

Mudanças climáticas podem levar ao colapso da Amazônia
Relatório encomendado pela Rede WWF e Allianz SE afirma que outros locais do mundo também poderão ser afetados

Relatório divulgado hoje na Alemanha afirma que regiões e ecossistemas mais diversos do planeta correm riscos de atingir um ponto de colapso que desencadeia consequências ambientais, sociais e econômicas devastadoras. A Amazônia é uma destas áreas e os efeitos do aquecimento global não ficarão restritos apenas à região. O possível colapso do sistema climático na Amazônia pode gerar impactos econômicos no Centro e Sul do Brasil, em estados como Mato Grosso do Sul, Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul.

O estudo intitulado ‘Pontos de Colapso no Sistema Climático Terrestre e suas conseqüências para o Setor de Seguros’ (Tipping Points in the Earth’s Climate System and Consequences for the Insurance Sector, em inglês), encomendado pela Allianz SE, em parceria com o WWF (World Wildlife Found) e o Tyndall Centre, analisou diferentes cenários de aumento de temperatura para chegar às suas conclusões.

Caso a elevação da temperatura média do planeta seja de 1ºC, em relação aos níveis de pré-industriais, a floresta amazônica pode entrar em colapso, perdendo cerca de 1,6 milhão de km2 de sua cobertura. Para exemplificar um possível impacto financeiro futuro decorrente da perda do estoque de carbono florestal nas áreas impactadas, o relatório utiliza a abordagem do Reino Unido para o shadow price do carbono, na qual um preço é aplicado a tonelada de gás do efeito estufa .

No cenário de 2°C as perdas derivadas da emissão de gases do efeito estufa, poderiam chegar à ordem de U$ 3 bilhões. Se a elevação for superior, entre 3 e 4°C, uma área entre 3,9 milhões e 4,3 milhões de Km2 poderá ser perdida e o valor econômico do carbono nestes casos seria entre US$7,8 bilhões e US$ 9,4 bilhões, respectivamente.

Boa parte das perdas em ambos cenários causaria um impacto significativo no mercado segurador. De acordo com o estudo, as segurados seriam diretamente afetadas pelos efeitos econômicos da seca na região amazônica. Isso implica na desaceleração da economia e na deterioração das finanças públicas.

“A atividade seguradora permeia todos os setores da economia com a função de ressarcir perdas e advertir a coletividade dos riscos que ameaçam sua existência e patrimônio. Por isso, é indispensável ao setor envolver-se diretamente nas mudanças que estão acontecendo no meio ambiente”, afirma Max Thiermann, presidente da Allianz Seguros.

2°C – O WWF-Brasil hoje defende que o limiar de 2°C não seja ultrapassado. “São muitos os impactos das mudanças climáticas se formos além desse patamar. Atingir o ponto de colapso significa perdas inestimáveis e definitivas”, explica Denise Hamú, secretária-geral do WWF-Brasil. “Esse relatório nos alerta, mais uma vez, para a necessidade de assinarmos um acordo global de clima justo, eficiente e ambicioso em Copenhague em dezembro deste ano”, aponta.

Outro impacto no Brasil previsto pelo relatório é o aumento da frequência de secas drásticas na região amazônica. A última ocorreu em 2005 e prejudicou a navegação, gerou graves problemas de abastecimento de água na região, além de matança de peixes, fome e isolamento de dezenas de localidades ribeirinhas por conta do desaparecimento dos rios e igarapés.

Trabalhos recentes sugerem que secas similares àquela de 2005 serão mais freqüentes, passando de uma a cada 20 anos para uma a cada 2 anos ou menos, entre 2025 e 2050, caso se chegue à estabilização em 450 a 550 ppmv (partes por milhão em volume) de CO2 -.

Além de todos os problemas sofridos em 2005, o estudo aponta que as secas podem gerar ainda combustão espontânea, redução de produtividade agrícola e na geração de hidreletricidade. Esses impactos combinados contribuíram, em 2005, com a redução do PIB brasileiro, principalmente em Mato Grosso do Sul, Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul. Somente nos dois últimos, estima-se que as perdas tenham chegado a US$ 16 milhões. Em 2004, Paraná e Rio Grande do Sul detinham 17,8% do PIB brasileiro.

“E é preciso lembrar que os custos econômicos são apenas uma parte da conta. Os possíveis impactos socais e ambientais são incalculáveis. O preço de mudar a economia do país e do mundo para uma economia de baixa emissão de carbono é muito menor”, afirma Carlos Rittl, coordenador do Programa Mudanças Climáticas e Energia do WWF-Brasil. “Esperamos que as metas de redução de emissões anunciadas recentemente pelo governo federal se transformem em um plano de ação de baixo carbono,” acrescenta.

Pelo mundo

Também segundo o documento, haverá derretimento das massas de gelo da Groenlândia e do Escudo de Gelo Antártico Oeste – West Antarctic Ice Shield (WAIS) – o que poderia elevar o nível do mar em 0,5 metro até 2050. O relatório aponta também que o aumento do nível dos oceanos irá afetar a costa leste dos EUA e poderá transformar a Califórnia em uma região de clima árido. Além disso, distúrbios nas monções indianas de verão na Índia e no Nepal podem afetar centenas de milhares de pessoas e custar bilhões de dólares.

“Como seguradores e investidores, devemos preparar nossos clientes para esses cenários, enquanto ainda temos margem de manobra. Definir os prêmios de forma adequada e sustentável é de interesse vital de todos os envolvidos, porque essa é a única maneira de garantir que as soluções de cobertura continuem a existir”, diz Clemens von Weichs, secretário-geral da Allianz Reinsurance.

O setor de seguros hoje aprendeu muito a partir das suas experiências com os sinistros de porte causados por furacões como Andrew (1992), Ivan (2004) e Katrina (2005). Modelos melhores ajudarão as pessoas a entenderem a frequência e a força dos desastres naturais. “Porém, modelos melhores não serão suficientes para proteger o clima”, explica Michael Bruch, da Allianz Global Corporate & Specialty, a seguradora industrial do Grupo Allianz. “O componente humano tem desempenhado um papel cada vez maior na redução do risco decorrente de desastres naturais, tanto em termos de gestão de risco, como de combate às causas humanas da mudança climática”.

Fonte: Portal EcoDebate - 24.11.2009

Brasil apresenta pesquisa que culpa pecuária pelo efeito estufa

A metade dos gases responsáveis pelo efeito estufa emitidos no Brasil procede da pecuária, segundo um estudo apresentado neste sábado em Copenhague, à margem da Conferência das Nações Unidas sobre a Mudança Climática.

Pesquisa culpa pecuária pelo efeito estufaAo analisar as emissões totais do Brasil "foi possível observar que o conjunto das emissões procedentes desta atividade (pecuária) corresponde, aproximadamente, à metade das emissões do Brasil", destaca o trabalho, liderado por Mercedes Bustamante, da Universidade de Brasília. Os pesquisadores brasileiros concluíram que das 2,2 gigatoneladas de equivalente do dióxido de carbono (CO2) emitidas oficialmente pelo Brasil em 2005, segundo dados do ministério brasileiro de Ciência e Tecnologia, aproximadamente 1.055 gigatoneladas correspondem à pecuária.

As emissões geradas pela pecuária incluem o desmatamento para a formação de pastos, queimadas para a renovação do capim e a fermentação intestinal bovina, que gera importantes quantidades de metano, um dos gases de maior efeito sobre o aquecimento global, disse Roberto Smeraldi, especialista da associação Amigos da Terra-Amazônia Brasileira.

Admitindo que a pecuária "é parte do problema da mudança climática", Smeraldi destacou que "ela também deve ser considerada como parte da solução" nas negociações em Copenhague sobre um novo acordo internacional para combater o aquecimento global. Smeraldi disse que é preciso fazer a pecuária evoluir, controlando o desmatamento para a formação de pastos, acabando com a impunidade dos crimes climáticos e dando incentivos econômicos aos criadores.

O Brasil possui o maior rebanho bovino do mundo, com mais de 190 milhões de cabeças.As emissões brasileiras de gases do efeito estufa cresceram 62% entre 1990 e 2005, e mais da metade deste aumento corresponde ao manejo da terra.O Brasil decidiu em Copenhague adotar um "compromisso voluntário" de reduzir suas emissões de CO2 entre 36% e 39% sobre a previsão de emissões para 2020, e mais da metade desta redução procederá da queda no desmatamento da selva amazônica. O restante dependerá de ações nos setores agropecuário, industrial, energético e siderúrgico.

Fonte: UOL - 12.12.2009

‘Estamos destruindo a Amazônia para alimentar vacas’. Entrevista com Jeremy Rifkin

Jeremy Rifkin é um economista de 65 anos. Assessorou Al Gore em assuntos relativos à economia e à ecologia durante a Administração de Bill Clinton. Uma reconhecida voz que há anos não se sente escutada. Afirma categoricamente que comer muitas vacas está aquecendo a Terra. Esteve em Madri na Conferência Crise alimentar: problemas e possíveis soluções, organizada pelo PSOE. Contou a José Luis Rodríguez Zapatero e a Robert Watson, diretor da Avaliação Internacional do Conhecimento, Ciência e Tecnologia em Agricultura para o Desenvolvimento (IAASTD), sua particular verdade incômoda. “É como se tivéssemos uma vaca no salão de casa e ninguém quisesse olhá-la”.

Segue a íntegra da entrevista que Rifkin concedeu a Maruxa Ruiz del Árbol e que está publicada no El País, 27-06-2008. A tradução é do Cepat.

Que mal as vacas estão fazendo ao aquecimento global?

A indústria da carne é a segunda maior causa do aquecimento do planeta. Sempre se fala do efeito da construção de prédios e do consumo que deles fazemos. Evidentemente, fala-se do transporte, mas nunca da indústria da carne. Pois bem: o consumo em prédios é a maior causa; a indústria da carne, a segunda, e o transporte, a terceira.

As vacas produzem emissões?

Sim, de metano, produzido por suas flatulências; de CO2, aquele que se gera quando comem e no transporte de sua carne aos mercados. Estamos destruindo a Amazônia para alimentá-las. É necessário produzir 900 quilos de alimentos para obter um quilo de carne.

Como se explica este desequilíbrio?

É preciso ter em conta que há uma relação entre os crescentes preços da energia, os custos da alimentação e a mudança climática. A ONU fez um relatório chamado Feed versus food (Razão versus alimentação) em que se concluía que 39% dos campos do mundo são utilizados para animais. Outros 47% são alimentos para o consumo humano. E outros 15% são para produtos industriais. Estamos utilizando o campo para alimentar os animais quando há 2,7 bilhões de pessoas que gastam mais da metade do seu dinheiro com alimentação.

O que propõe então?

Deveríamos começar a pensar em aumentar os impostos sobre alimentos para gado e animar a produção de alimentos para o consumo humano. Assim como colocamos um limite ao dióxido de carbono, temos que frear o consumo de carne.

Mas os produtores têm que ganhar a vida.

Evidentemente. Este é um tema que quero que fique bem claro. É preciso fazer a transição de maneira que não afete os produtores. Por isso, são tão importantes os incentivos para o cultivo de alimentos para o consumo humano.

Você tornou pública esta teoria no começo dos anos 90 com seu livro Beyond the Beef (Para além da carne). Por que ninguém lhe faz caso?

Sim, é uma velha história. É muito triste que nem sequer um líder mundial se tenha preocupado com isso. Há apenas duas pessoas que estão falando disso: Rajendra Pachauri (presidente do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da Organização das Nações Unidas – IPCC – e Prêmio Nobel da Paz em 2007 junto com Al Gore) e eu. Ah, e Paul McCartney, que está muito envolvido e propôs a segunda-feira verde para que no primeiro dia da semana todo o mundo faça dieta vegetariana.

Por que estão tão sozinhos?

Porque diz respeito à indústria global do gado e teria que se mudar os hábitos das pessoas. Perceba que precisamente sua dieta, a mediterrânea, que se baseia em grandes quantidades de frutas e verduras e muito pouca carne, é perfeita. O problema é que em países como o meu se consomem quantidades inadmissíveis de carne. Tomamos inclusive mais proteínas do que somos capazes de digerir.

Você come carne?

Pode-se dizer que sou 95% vegetariano. Comecei em 1977, mas tomo leite e como um pouco de peixe.

Publicado em 28.06.2008

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos

O consumo de carne e a degradação da Floresta Amazônica. Entrevista especial com Elke Stehfest

Na opinião da bióloga e cientista ambiental holandesa Elke Stehfest, o desmatamento realizado para a agricultura, seja para plantio de alimentos ou para o plantio de pastagens para o gado, é o fator de maior impacto na diminuição da Floresta Amazônica. Na entrevista que concedeu ao Instituto Humanitas Unisinos - IHU por e-mail, a pesquisadora que trabalha na Agência de Avaliação Ambiental da Holanda, na equipe IMAGE, destaca o “forte efeito da produção pecuária, especialmente criação de gado, sobre o efeito estufa”. Isso é confirmado no estudo que realizaram, acentua. A equipe IMAGE esteve extensivamente envolvida no recente relatório do IPCC e em vários outros estudos e avaliações sobre mudanças ambientais globais.

Stehfest acentua que o consumo mundial de carne precisa ser reduzido, e enumera vários outros motivos para diminuir esse consumo, para além do aumento do aquecimento global. Saúde, conservação da biodiversidade e bem-estar animal são alguns desses motivos.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – A dieta do clima proposta pela Agência de Impacto Ambiental da Holanda sugere consumir até 400g de carne por semana. Com isso, a pretensão é que se reduza a emissão dos gases estufa em 10%, já que se diminuiria o número de animais criados. Qual é a viabilidade dessa proposta?

Elke Stehfest – Nós realmente calculamos um cenário com cerca de 400g de consumo de carne por semana e per capita, no mundo todo. Para muitos países desenvolvidos, isso significaria reduzir seu consumo de carne para 2/3. Para alguns países africanos isso na verdade significaria um crescimento comparado com a referência. É difícil dizer algo sobre a viabilidade, e não examinamos isso em nosso artigo. Isso obviamente depende de medidas que devem ser tomadas para que se consiga uma redução no consumo de carne. As possíveis medidas são:

- Informar os consumidores a respeito dos benefícios da redução do consumo de carne para a biodiversidade, clima e para sua própria saúde. Talvez introduzindo rótulos informativos nos produtos;

- Viabilizar alternativas saborosas para a carne. Por exemplo, burgers vegetarianos e molhos;

- Um passo ainda maior seriam medidas para proteger florestas tropicais, colocando um preço no carbono da terra. Nas negociações climáticas de Copenhagen, o mecanismo “Reduzindo Emissões do Desmatamento e Degradação” (“Reducing Emissions from Deforestation and Degradation”, REDD) é discutido como uma medida possível para reduzir emissões. Ambas podem ter um efeito nas áreas usadas para produção de carne e alimento.

IHU On-Line – Quais são as evidências científicas entre a criação dos bovinos e o aumento do efeito estufa?

Elke Stehfest – O forte efeito da produção pecuária, especialmente criação de gado, sobre o efeito estufa é muito bem estabelecido, e novamente confirmado em nosso estudo. Um dos mais bem conhecidos estudos é “A grande sombra da pecuária” (Livestock's long shadow - FAO).

IHU On-Line – Que outros hábitos alimentares humanos vêm interferindo seriamente no clima?

Elke Stehfest – A produção pecuária para carne e leite/laticínios tem mesmo o maior impacto nas emissões de gases de efeito estufa.

IHU On-Line – Nesse estudo, vocês sugerem que se inclua nos rótulos o custo ambiental da carne. Acredita que a população já está suficientemente preparada e mobilizada para esse tipo de alerta?

Elke Stehfest – Alguns governos, como o holandês, também perceberam o grande impacto do consumo de carne. O governo não quer controlar a escolha dos consumidores, mas quer prover todas as informações que os farão ter uma escolha informada.

IHU On-Line – Além do fator ambiental, que outros motivos teríamos para não ingerir carne?

Elke Stehfest – Embora não sejamos especialistas nessas áreas e não examinamos isso em detalhe, afirmo que existem outras razões bem conhecidas pelas quais as pessoas comem menos carne. Saúde deve ser a razão mais importante para a redução do consumo de carne bovina e suína, uma vez que ambas são suspeitas de contribuírem para câncer no intestino e doenças coronárias.

Outras razões ambientais, junto com a mudança climática, são a conservação da natureza e da biodiversidade, isto é, menos desmatamento tropical para a produção de carne e soja. O bem-estar animal é uma das outras importantes razões pelas quais as pessoas tentam comer menos carne ou mesmo sejam vegetarianas.

IHU On-Line – O economista norte-americano Jeremy Rifkin afirma que estamos destruindo a Amazônia para alimentar vacas. Como esse ecossistema vem reagindo a essa investida pecuarista?

Elke Stehfest – O desmatamento para a agricultura, tanto para plantio quanto para pastagem para o gado, é a mais importante razão para a degradação da Floresta Amazônica. Os efeitos desse desmatamento são:

- perda de habitats naturais

- extinção de espécies

- degradação ou erosão dos solos

- efeitos hídricos como aumento de inundações

- problemas na viabilidade de recursos hídricos com menos tamponamento florestal

- desmatamento em larga escala pode causar a morte de ainda mais florestas

- queda das chuvas em áreas de plantio no leste do Brasil (uma vez que as nuvens/chuvas são produzidas sobre a floresta tropical amazônica).

IHU On-Line – Segundo estimativas, para cada 900 kg de alimento produzido, se produz apenas 1 kg de carne. Chegou a hora de revermos nosso padrão alimentar?

Elke Stehfest – Sim, a produção de carne, especialmente a bovina, utiliza uma grande quantidade de investimento, e também investimento de terra em função de alimentar a crescente população mundial. Para conservar os habitats naturais do mundo, o atual consumo de carne dos países em desenvolvimento não pode ser seguido. Ele deve ser reduzido.

IHU On-Line – Para esse mesmo 1kg de carne produzido são necessários de 20 a 30 mil litros de água. Além disso, a pecuária é responsável por 1/3 da poluição de águas potáveis com nitrogênio e fósforo. Pode-se falar em um comprometimento do potencial hidrológico do qual dispomos em função da criação de gado?

Elke Stehfest – Os números do uso de água para a produção de carne bovina parece alto, possivelmente porque inclui a evaporação/transpiração do pasto. Se considerarmos apenas o consumo de água pelo gado da ordem de 4 a 10 litros por quilo de alimentação seca consumida e a conversão de eficiência de 30 a 60 quilos de alimento seco por quilo de carne, o consumo de água é de uma magnitude menor.

No que se refere à poluição das águas superficiais e subterrâneas, não achamos que os problemas são tão graves quanto em países como a Holanda, onde mais gado é criado em estábulos e o esterco é espalhado por áreas relativamente pequenas de terra. Nos estados brasileiros com áreas importantes de criação de gado, os sistemas são geralmente mais extensos. Com lençóis de água profundos e transporte lento de água e nitrato pelo sistema subterrâneo, as chances de ocorrer desnitrificação são grandes. Mas sim, é correto dizer que a produção de carne bovina pode contribuir para a poluição da água da superfície e subterrânea, mas é difícil dizer sem mais informações que essa contribuição é de 1/3.

Por Márcia Junges

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos

A dieta do clima: Coma menos carne e combata o aquecimento

Das centenas de dietas criadas nos últimos anos esta, certamente, é a mais politicamente correta de todas: siga seus preceitos e ajude a salvar o planeta do aquecimento global. De quebra, ganhe uma vida mais saudável e, quem sabe, alguns quilos a menos.

É a dieta com baixos teores de carne vermelha, no máximo 400 gramas por semana.

Se for adotada no mundo todo, calculam especialistas, a redução de emissões de gases-estufa seria da ordem de 10%, uma economia de nada menos que US$ 20 trilhões nos custos do combate às mudanças climáticas — cerca da metade do valor total necessário para tal tarefa em 2050.

A diminuição da criação de animais seria uma forma natural de diminuir as emissões e reduzir os investimentos em outras formas mais caras de combate aos poluentes.

O estudo realizado por especialistas da Agência de Impacto Ambiental da Holanda concluiu que os hábitos alimentares modernos — calcados numa dieta muito rica em carne vermelha — têm um impacto significativo no aquecimento do planeta.

E a redução do consumo de carne bovina, de porco, de frango e ovos criaria um novo sorvedouro de dióxido de carbono.

Pode não parecer óbvio de imediato, mas a criação extensiva de animais tem um grande impacto no clima. Em primeiro lugar, porque quanto mais a dieta global for baseada no consumo de carne, maior terá que ser a criação e, portanto, a área que deixaria de ser ocupada por vegetação — que, naturalmente, absorve carbono.

A flatulência dos bois e o metano

Além disso, para alimentar os animais, há uma ampliação no cultivo de grãos, o que geralmente demanda o uso de energia geradora de emissões poluentes. Para se ter uma ideia, a produção de um único quilo de carne bovina demanda o gasto de 15 quilos de grãos e 30 quilos de forragem.

Por último, mas não menos importante, há a questão da flatulência.

O principal gás expelido pelos extensos rebanhos mundiais é o metano — um dos principais responsáveis pelo efeito estufa.

O grupo responsável pelo novo estudo, coordenado por Elke Stehfest, calculou o impacto do consumo de carne no custo da estabilização dos níveis de CO2 na atmosfera em 450 partes por milhão — um padrão que, segundo muitos cientistas, é necessário para prevenir graves alterações climáticas, como secas frequentes e elevação do nível dos mares.

Se os hábitos alimentares não se alterarem, em 2050, para alcançar esse nível de dióxido de carbono, as emissões teriam que ser reduzidas em dois terços , o que custaria aproximadamente US$ 40 trilhões.

Mas, se a população mundial passar a seguir uma dieta pobre em carne vermelha — definida como 70 gramas de carne bovina e 325 gramas de frango e ovos por semana — cerca de 15 milhões de quilômetros quadrados de área ocupada pela criação de animais seria liberada para vegetação.

As emissões de gases do efeito estufa seriam reduzidas em 10% com a queda do número de animais. Juntos, esses impactos reduziriam em 50% os custos do combate às mudanças climáticas em 2050.

Os cientistas sugerem que, para ajudar os consumidores, o custo ambiental da carne — ou o volume de emissões de CO2 e metano por porção — seja incluído nos rótulos.

Reportagem do jornal O Globo, publicada em 11.02.2009

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos

'Comam menos carne', diz o principal cientista da ONU

As pessoas deveriam considerar comer menos carne como uma forma de combater o aquecimento global, segundo o principal cientista climático da Organização das Nações Unidas (ONU).

Por Richard Black - Repórter de Meio Ambiente da BBC News

Rajendra Pachauri, que preside o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), fará a sugestão em um discurso em Londres na noite desta segunda-feira.

Números da ONU sugerem que a produção de carne lança mais gases do efeito estufa na atmosfera do que o setor do transporte.

Mas um porta-voz da União Nacional dos Fazendeiros da Grã-Bretanha disse que as emissões de metano de fazendas estão caindo.

Pachauri acaba de ser apontado para um segundo termo de seis anos como presidente do IPCC, o órgão que reúne e avalia os dados sobre clima dos governos mundiais, e que já conquistou um prêmio Nobel.

“A Organização da ONU para Agricultura e Alimentos (FAO) estima que as emissões diretas da produção de carne correspondem a 18% do total mundial de emissões de gases do efeito estufa”, disse à BBC.

“Então eu quero destacar o fato de que entre as opções para reduzir as mudanças climáticas, mudar a dieta é algo que deveria ser considerado.”

Clima de persuasão

O número da FAO de 18% inclui gases do efeito estufa liberados em todas as etapas do ciclo de produção da carne – abertura de pastos em florestas, fabricação e transporte de fertilizantes, queima de combustíveis fósseis em veículos de fazendas e as emissões físicas de gado e rebanho.

As contribuições dos principais gases do efeito estufa – dióxido de carbono, metano e óxido nítrico – são praticamente equivalentes, segundo a FAO.

O transporte, em contraste, responde por apenas 13% da pegada de gases da humanidade, segundo o IPCC.

Pechauri irá falar em um encontro organizado pela organização Compassion in World Farming, CIWF (Compaixão nas Fazendas Mundiais, em tradução-livre), cuja principal razão para sugerir que as pessoas reduzam seu consumo de carne é para reduzir o número de animais em indústrias pecuárias.

A embaixadora da CIWF, Joyce D’Silva, disse que pensar nas mudanças climáticas poderia motivar as pessoas a mudarem seus hábitos.

“O ângulo das mudanças climáticas pode ser bastante persuasivo”, disse.

“Pesquisas mostram que as pessoas estão ansiosas sobre suas pegadas de carbono e reduzindo as jornadas de carro, por exemplo; mas elas talvez não percebam que mudar o que está em seu prato pode ter um efeito ainda maior.”

Benefícios

Há várias possibilidades de redução dos gases de efeito estufa associados aos animais em fazendas.

Elas vão de ângulos científicos, como as variedades de gado geneticamente criadas para produzir menos metano em flatulências, até reduzir a quantidade de transporte envolvido, comendo animais criados localmente.

“A União Nacional dos Fazendeiros da Grã-Bretanha está comprometida em assegurar que a agropecuária seja parte da solução às mudanças climáticas, e não parte do problema”, disse à BBC uma porta-voz do órgão.

“Nós apoiamos fortemente as pesquisas com o objetivo de reduzir as emissões de metano dos animais de fazendas, por exemplo, mudando suas dietas e usando a digestão anaeróbica.”

As emissões de metano de fazendas britânicas caíram 13% desde 1990.

Mas a maior fonte mundial de dióxido de carbono vindo da produção de carne é o desmatamento, principalmente de florestas tropicais, que deve continuar enquanto a demanda por carne crescer.

D’Silva acredita que os governos negociando um sucessor ao Protocolo de Kyoto deveriam levar esses fatores em conta.

“Eu gostaria de ver governos colocarem metas para a redução de produção e consumo de carne”, disse.

“Isso é algo que deveria provavelmente acontecer em nível global como parte de um tratado negociado para mudanças climáticas, e seria feito de forma justa, para que as pessoas que têm pouca carne no momento, como na África sub-saariana, possam comer mais, e nós no oeste comeríamos menos.”

Pachauri, no entanto, vê a questão mais como uma escolha pessoal.

“Eu não sou a favor de ordenar coisas como essa, mas se houver um preço (global) sobre o carbono, talvez o preço da carne suba e as pessoas comam menos”, disse.

“Mas, se formos sinceros, menos carne também é bom para a saúde, e ao mesmo tempo reduziria as emissões de gases do efeito estufa.”

Matéria publicada em 07.09.2008 - Fonte: BBC Brasil