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Desmatamento na Amazônia aumenta 28%

Desmatamento na Amazônia aumenta 28%
O desmatamento na Amazônia subiu 28% segundo números do Projeto de Monitoramento da Floresta Amazônica por Satélites (Prodes) e do Instituto Nacional de Pesquisa Espaciais (Inpe).

Os dados apresentados no último dia 14, pela ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, são equivalentes ao período de agosto de 2012 a julho de 2013 e mostram que a área desmatada foi 5.843 quilômetros quadrados.

Apesar do aumento, a ministra assegurou que essa é a “segunda menor taxa de desmatamento já registrada em toda a história” desde que o monitoramento começou a ser feito pelo Inpe. Entre os estados que mais desmataram estão Mato Grosso (52%) e Roraima (49%). Quando o cálculo é feito em quilômetros os estados que lideram o ranking de desmatamento são o Pará, com 2.379 quilômetros quadrados, e Mato Grosso, com 1.149 quilômetros quadrados.

Amazônia perde área maior que São Paulo em 6 meses, aponta Inpe

Amazônia perde área maior que São Paulo em 6 meses, aponta Inpe
Os alertas de desmatamento na Amazônia Legal subiram 26,6% nos últimos seis meses, no intervalo entre 1º de agosto de 2012 e 28 de fevereiro de 2013, em comparação com o mesmo período anterior, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) divulgadas na quinta-feira, 28 de março.

As informações, que incluem a degradação (desmatamento parcial) e o corte raso (desmatamento total) da floresta, foram registradas pelo Deter, sistema de detecção de desmatamento em tempo real do Inpe, que utiliza imagens de satélite para analisar a perda da mata em nove estados.

Pecuária ocupa maior parte de áreas desmatadas na Amazônia Legal

Percentual de ocupação chega a 62%, segundo Governo Federal. Em Mato Grosso, percentual chega a 68%, enquanto agricultura 16%.

O principal uso das áreas desmatadas na Amazônia Legal em Mato Grosso até o ano de 2008 foi para pastagem. Na unidade federada, 68% do perímetro desflorestado dentro deste bioma foram ocupados pela pecuária.

A conclusão é do TerraClass, sistema baseado em estudos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Os números apresentados nesta terça-feira (13) em Cuiabá, têm como base de dados o mapeamento do Projeto de Monitoramento do Desflorestamento na Amazônia Legal (PRODES).

Vai uma árvore mal passada aí?

Vai uma árvore mal passada aí? Por Paula Schuwenck*

Nossas florestas estão sendo servidas nas churrascarias e nos pratos do Brasil e do mundo. No lugar de árvores, pastos. E deles é que sai boa parte da carne exportada e praticamente toda a carne distribuída pelo País.

Há muito tempo já ouvimos falar dos sérios problemas ambientais decorrentes do uso incorreto da Amazônia, do Cerrado e de biomas que sofrem extrativismo irresponsável. Porém, das duas uma: ou fechamos os olhos, selamos os lábios e tapamos os ouvidos; ou enxergamos, falamos e ouvimos a respeito, mas nos sentimos impotentes e deixamos como está para ver como fica.

Pecuária brasileira: ‘Patada’ Ecológica

Pecuária brasileira: ‘Patada’ Ecológica
(clique para ampliar)
A “pegada ecológica” dos 187 milhões de brasileiros está estimada em 2,4 hectares por pessoa ano. Já ultrapassou a demanda, considerada equilibrada, de 2,1 hectares. Como o Brasil é o décimo país mais desigual do planeta, é evidente que alguns poucos estão consumindo mais hectares do que a esmagadora maioria que mal consegue sobreviver.

Porém, o estrago feito pela média brasileira tem embutida à “patada ecológica” do rebanho bovino. A pecuária brasileira ocupa 172 milhões de hectares para 177 milhões de cabeça de gado. Cada boi, portanto, ocupa quase um hectare de terra, ou seja, quase 20% da superfície do país. Toda área ocupada pela agricultura não passa de 72 milhões de hectares. Portanto, a “patada ecológica” das boiadas representa quase 50% da “pegada ecológica” da média brasileira.

Comer carne estimula o desmatamento?

Comer carne estimula o desmatamento?
A criação de pastos e a ampliação das lavouras de soja, que é ingrediente das rações bovinas, ameaçam a Floresta Amazônica

Indiretamente, sim. “Para criar pastos, muitos pecuaristas recorrem ao desmatamento de florestas e de outros biomas, como o cerrado”, afirma Marisa Dantas Bitencourt, professora do Instituto de Biociências da USP. Segundo a organização não-governamental Viva!, que atua em defesa dos animais, 70% das áreas desmatadas da Amazônia são usadas para criação de pastos.

Existe, ainda, outro fator que associa o consumo de carne ao desmatamento. “Boa parte da soja plantada em áreas de florestas, como a Amazônia, é utilizada para produção de farelo, matéria-prima da ração do gado criado confinado em curral”, diz Marisa. Para contornar o problema seria preciso um rígido controle sobre a origem da carne bovina e da ração do gado.

O que há hoje, segundo o Ministério da Agricultura, é um acordo em que agricultores se comprometem a não expandir a área destinada ao plantio de soja e um debate entre pecuaristas e frigoríficos sobre um possível acordo em que a Embrapa monitoraria pastos via satélite – assim, seria possível saber se há expansão de pastagens para áreas de florestas.

Fonte - Publicado em 04.2009

Queimadas na Amazônia aumentam 50% no período de um ano

Por Lucas Frasão

Segundo especialistas, menor índice de chuvas é um dos responsáveis. Focos de calor devem aumentar ainda mais até outubro.

Queimadas na Amazônia aumentam 50% no período de um ano
O número de focos de calor nos estados da Amazônia Legal, que coincidem em boa parte com a quantidade de queimadas detectadas no bioma, aumentou cerca de 50% no primeiro semestre de 2010 em relação ao mesmo período do ano passado.

A ocorrência de mais incêndios, geralmente mais comuns a partir de junho em quase todo o país, está relacionada a questões climáticas no ecossistema e pode ser influenciada pela economia e pela fiscalização.

Entre janeiro e junho de 2009, um total de 1.604 focos de calor foi registrado na Amazônia Legal, considerando apenas imagens geradas pela passagem noturna do satélite NOAA 15. O número subiu para 2.390 no mesmo período de 2010. Os dados estão disponíveis no Banco de Dados de Queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

"Usar esse satélite é uma forma de minimizar o registro de focos de calor como se fossem queimadas. Ele identifica superfícies com temperatura acima de 47 graus. O satélite que fotografa durante a tarde pode detectar rochas com temperatura acima disso", explica Lara Steil, chefe substituta do PrevFogo, sistema por meio do qual o Ibama monitora e controla incêndios no país.

O estado com mais focos de calor detectados neste ano, usando apenas o NOAA 15, foi o Mato Grosso, com 1.267 ocorrências. Na sequência vem o Pará (451), Roraima (423), Maranhão (103), Rondônia (85), Amazonas (39), Amapá e Tocantins (ambos com 8) e Acre (6). Mato Grosso também teve mais ocorrências em 2009, com 973 focos, seguido de Roraima (265), Pará (156), Maranhão (115), Amazonas (45), Rondônia (22), Acre (13), Amapá (9) e Tocantins (6). O número total de ocorrências para o mesmo período foi de 2.117 para o ano de 2008 e de 1.144 para 2007, segundo dados do Inpe.

De acordo com Lara, a ocorrência de mais focos de calor em 2010 pode ser justificada, em parte, porque 2009 foi um ano "atípico", segundo ela. "Choveu mais no ano passado e, consequentemente, houve menos incêndio".

Para Alberto Setzer, pesquisador de queimadas do Inpe, o aumento na quantia de focos de calor também está relacionado a questões climáticas. "Este ano temos menos dias com chuvas e o período de estiagem está maior", diz ele. "Mas há outros elementos que podem influenciar uma queimada." No caso de Mato Grosso, estado com mais focos de queimada, uma proibição de usar o fogo para fins de agricultura começa em 15 de julho e vai até setembro para tentar minimizar os incêndios. "Posso supor que alguns agropecuaristas vão se antecipar a esta proibição e o número de queimadas vai crescer até o dia 15", diz Setzer.

Segundo o pesquisador, a economia do país e o nível de fiscalização por órgãos ambientais também podem influenciar a incidência de queimadas. "Em 2008 e 2009 ainda havia uma crise econômica no mundo e tivemos menos desmatamento no Brasil", diz ele. O pesquisador explica que o número de queimadas no primeiro semestre do ano é só uma amostra do que deve ocorrer nos próximos seis meses. "Pode ser que tenhamos um ano com menos queimadas do que 2009. De 80 a 90% das queimadas devem ocorrer mais para frente", diz ele.

O período com mais queimadas vai geralmente até o fim de outubro, segundo Lara, e até lá os focos de calor devem aumentar ainda mais. "Isso se inverte um pouco em Roraima, que está no hemisfério Norte e tem o período de seca começando geralmente em novembro", diz ela.

Fonte: Globo Amazônia - Publicado em 11.07.2010

Desmatamento da Amazônia cresce 157% em um ano

O desmatamento na Amazônia em julho atingiu pelo menos 836,5 km2 de floresta, 157% a mais que o registrado em julho de 2008, quando o desmate foi de 323 km2. Os dados são do relatório do Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter), divulgado nesta terça-feira (1º) pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). A área de floresta derrubada equivale à metade do município de São Paulo.

O Pará se manteve na liderança do desmatamento, com 577 km2 de derrubadas (quase 70% do total registrado em julho). No mesmo período, Mato Grosso derrubou 123,8 km2 e o Amazonas aparece em seguida, com 47 km2 a menos de florestas. No Maranhão, os novos desmatamentos atingiram 37,6km2 e em Rondônia, 34,5 km2.

Desmatamento na região de Alta Floresta (MT), município que faz parte da Amazônia; prática teve crescimento de 157% em um anoO desmatamento medido pelos satélites em Roraima foi de 8,3 km2; em Tocantins, de 5,3 km2; e no Acre, de 3 km2. Com menos nuvens que nos meses anteriores, em julho os satélites conseguiram observar 77% da Amazônia Legal. Apenas o do Amapá não foi monitorado, pois apresentou um índice de cobertura de nuvens de 96% no período.

A devastação ficou concentrado principalmente na região dos municípios de Novo Progresso e São Félix do Xingu, ambos no Pará, e na região leste do estado, na fronteira com o Maranhão. Nos outros estados, o desmate foi disperso.

Mais cedo, a ONG Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) também divulgou dados sobre o desmatamento em julho, que apontaram derrubada de 532 km2 de florestas, aumento de 63% em relação ao mesmo mês de 2008.

A medição do Deter considera as áreas que sofreram corte raso (desmate completo) e as que estão em degradação progressiva. O sistema serve de alerta para as ações de fiscalização e controle dos órgãos ambientais.

De agosto de 2008 até julho de 2009 (calendário para cálculo da taxa anual do desmatamento), o Deter registrou 4.375 km2 de desmatamento na Amazônia Legal. No período anterior (agosto de 2007 a julho de 2008), a área devastada foi de 8.147km2.

A redução verificada pelo Deter pode sinalizar queda na taxa anual de desmatamento, medida pelo Projeto de Monitoramento do Desflorestamento na Amazônia Legal (Prodes), também calculada pelo Inpe. O número atual (2007/2008) é de 11,9 mil km2.

Publicado em 01.09.2009 - Fonte: Folha Online

‘Estamos destruindo a Amazônia para alimentar vacas’. Entrevista com Jeremy Rifkin

Jeremy Rifkin é um economista de 65 anos. Assessorou Al Gore em assuntos relativos à economia e à ecologia durante a Administração de Bill Clinton. Uma reconhecida voz que há anos não se sente escutada. Afirma categoricamente que comer muitas vacas está aquecendo a Terra. Esteve em Madri na Conferência Crise alimentar: problemas e possíveis soluções, organizada pelo PSOE. Contou a José Luis Rodríguez Zapatero e a Robert Watson, diretor da Avaliação Internacional do Conhecimento, Ciência e Tecnologia em Agricultura para o Desenvolvimento (IAASTD), sua particular verdade incômoda. “É como se tivéssemos uma vaca no salão de casa e ninguém quisesse olhá-la”.

Segue a íntegra da entrevista que Rifkin concedeu a Maruxa Ruiz del Árbol e que está publicada no El País, 27-06-2008. A tradução é do Cepat.

Que mal as vacas estão fazendo ao aquecimento global?

A indústria da carne é a segunda maior causa do aquecimento do planeta. Sempre se fala do efeito da construção de prédios e do consumo que deles fazemos. Evidentemente, fala-se do transporte, mas nunca da indústria da carne. Pois bem: o consumo em prédios é a maior causa; a indústria da carne, a segunda, e o transporte, a terceira.

As vacas produzem emissões?

Sim, de metano, produzido por suas flatulências; de CO2, aquele que se gera quando comem e no transporte de sua carne aos mercados. Estamos destruindo a Amazônia para alimentá-las. É necessário produzir 900 quilos de alimentos para obter um quilo de carne.

Como se explica este desequilíbrio?

É preciso ter em conta que há uma relação entre os crescentes preços da energia, os custos da alimentação e a mudança climática. A ONU fez um relatório chamado Feed versus food (Razão versus alimentação) em que se concluía que 39% dos campos do mundo são utilizados para animais. Outros 47% são alimentos para o consumo humano. E outros 15% são para produtos industriais. Estamos utilizando o campo para alimentar os animais quando há 2,7 bilhões de pessoas que gastam mais da metade do seu dinheiro com alimentação.

O que propõe então?

Deveríamos começar a pensar em aumentar os impostos sobre alimentos para gado e animar a produção de alimentos para o consumo humano. Assim como colocamos um limite ao dióxido de carbono, temos que frear o consumo de carne.

Mas os produtores têm que ganhar a vida.

Evidentemente. Este é um tema que quero que fique bem claro. É preciso fazer a transição de maneira que não afete os produtores. Por isso, são tão importantes os incentivos para o cultivo de alimentos para o consumo humano.

Você tornou pública esta teoria no começo dos anos 90 com seu livro Beyond the Beef (Para além da carne). Por que ninguém lhe faz caso?

Sim, é uma velha história. É muito triste que nem sequer um líder mundial se tenha preocupado com isso. Há apenas duas pessoas que estão falando disso: Rajendra Pachauri (presidente do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da Organização das Nações Unidas – IPCC – e Prêmio Nobel da Paz em 2007 junto com Al Gore) e eu. Ah, e Paul McCartney, que está muito envolvido e propôs a segunda-feira verde para que no primeiro dia da semana todo o mundo faça dieta vegetariana.

Por que estão tão sozinhos?

Porque diz respeito à indústria global do gado e teria que se mudar os hábitos das pessoas. Perceba que precisamente sua dieta, a mediterrânea, que se baseia em grandes quantidades de frutas e verduras e muito pouca carne, é perfeita. O problema é que em países como o meu se consomem quantidades inadmissíveis de carne. Tomamos inclusive mais proteínas do que somos capazes de digerir.

Você come carne?

Pode-se dizer que sou 95% vegetariano. Comecei em 1977, mas tomo leite e como um pouco de peixe.

Publicado em 28.06.2008

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos

Boi e soja influenciam o desmate

Um estudo feito pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) mostra que o desmatamento segue a flutuação do mercado de commodities, especialmente carne e soja. A queda do preço nos últimos anos teria ajudado a controlar a derrubada nos últimos três anos. Da mesma forma, a recuperação do mercado teria impulsionado a retomada do desmate em 2007. A reportagem é de Cristina Amorim e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 28/01/2008.

A ligação entre os fatores foi levantada pela ministra do Meio Ambiente, Marina Silva. O estudo foi apresentado ao MMA pelo autor, Paulo Barreto, há algumas semanas.

Por meio de nota, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) “repudia totalmente” a ligação entre os fatores e afirma que “o grande proprietário de terras na região é o próprio governo federal, detentor de 76% das áreas na Amazônia Legal, devendo a este o ato de cuidar de suas próprias terras”.

A análise feita por Barreto compara, de 1994 a 2006, a área desmatada na região, medida pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), com o preço anual médio deflacionado da saca de soja e do boi. “A relação com o gado é mais consistente”, diz Barreto. Ela é de 1 para 0,82 (1 para 1 é o coeficiente padrão) para a carne e 1 para 0,50 para o grão.

O autor explica que floresta, quando derrubada com corte raso do jeito que é detectado pelo satélite, recebe melhor pasto do que grão, uma vez que o solo ainda sente o impacto do desmate. “A soja usa pastagem antiga. Além disso, ela demanda uma infra-estrutura melhor, com estradas que permitam o escoamento da produção, relevo plano e um regime de chuvas específico. No caso do gado, as exigências são mais brandas.”

Barreto, contudo, afirma que a soja pode pressionar o gado a avançar sobre novas áreas e, em casos de preços muito altos, derrubar para plantar é vantajoso. É o que teria ocorrido entre 2001 e 2004 - nesse ano, 27.379 km2 foram desmatados, quando o preço do gado estava em queda. Esse é o segundo maior índice já registrado pelo Inpe. O primeiro, de 29.059 km2, coincide com o lançamento do Plano Real, em 1º de julho de 1995.

A ação das madeireiras não teria sido determinante para o repique do desmatamento. As regiões mais afetadas, como centro-norte de Mato Grosso e oeste do Pará, tiveram as árvores de maior valor comercial retiradas há mais de uma década. “As atuais fronteiras (de desmate) já passaram pelo ciclo da madeira”, diz Barreto.

Publicado em 28.01.2008

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos

"A pecuária hoje é o maior agente de desmatamento da Amazônia" diz ministro do meio ambiente

Pecuaristas vão ter de 'entrar na linha', adverte Minc. Ele elogia boicote ao gado com origem em desmatamento recente. E se defende de quem o critica por aparecer demais na mídia.

"A pecuária hoje é o maior agente de desmatamento da Amazônia e quero dizer aos que representam este setor que entrem na linha ou vão se dar mal", diz, em entrevista exclusiva ao Globo Amazônia, o ministro do Meio ambiente, Carlos Minc. Ele fez o comentário a propósito do boicote de redes de supermercados à carne produzida no Pará, por causa da suposta ligação do produto com o desmatamento da floresta amazônica. A decisão desses supermercados teve base em investigações do Ministério Público Federal e da organização de defesa ambiental Greenpeace.

Na entrevista, Minc também detalha o programa de desenvolvimento que o governo lança nesta sexta-feira (19) nas cidades que mais desmataram a Amazônia recentemente e se defende de quem o critica por aparecer demais na mídia.

Globo Amazônia - O que é a operação Arco Verde/Terra Legal, que o senhor lança com o presidente Lula e outros sete ministros nesta sexta-feira?

Carlos Minc - Estamos combatendo o desmatamento na Amazônia. Conseguimos reduzir o desmatamento em 55% em comparação aos mesmos meses do ano anterior, pelos dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). Como? Corte de crédito para desmatadores, leilão de boi e madeira pirata, triplicamos as operações, em suma, combatendo o crime ambiental. Você tem que dar às pessoas os meios de fazer o certo. Na Operação Arco Verde, o Ministério do Desenvolvimento Agrário dá o titulo da terra, o Banco da Amazônia (Basa) dá crédito para pequenos empreendimentos sustentáveis. Tem a pesca e a piscicultura: vamos colocar o peixe amazônico no lugar do boi pirata. O Ministério do Meio Ambiente, por exemplo, vai entrar com o manejo florestal sustentável. A Embrapa dará orientação para uma boa agricultura de baixo impacto, que não invada áreas protegidas.

Globo Amazônia - Foi preparada uma espécie de caravana do governo, com caminhões que irão a estas cidades. Com uma operação itinerante , podemos esperar um resultado duradouro?

Minc - A operação é permanente. Isso é o lançamento. Você lança as bases, identifica as pessoas, coloca um posto do INSS, outro da Embrapa, cria critérios de sustentabilidade para o Basa e o Banco do Brasil investirem, escolhe as localidades mais propensas a receberem apoio para fazer manejo florestal. Depois o programa continua. Esta blitz inicial é para mapear e implantar. Depois vem a continuidade e a manutenção.

Globo Amazônia - O presidente Lula disse que vetaria “excessos” na MP de regularização fundiária da Amazônia, mas não especificou quais. Ele já disse ao senhor o que exatamente pretende vetar (clique aqui para entender a MP da Amazônia)?

Minc - Ele ouviu várias opiniões e deve tomar sua decisão definitiva até o dia 24. A ideia geral é manter o espírito inicial do projeto. Considero a regularização fundiária essencial para combater a violência da terra. Além disso, ela ajuda a combater o desmatamento. Um dos pontos da lei diz que quem ganhar o título e desmatar sua reserva legal ou área de preservação permanente perde a terra.

Globo Amazônia - Essa discussão em torno da MP 458 e de outras medidas colocou o senhor em choque com os ruralistas. O senhor reclamou que os projetos ambientais que chegam ao Congresso são tão modificados que perdem sua essência. Falta uma frente ambientalista mais ampla para conter esse tipo de modificação?

“O bom fiscal é o povo consciente.”

Minc - Temos uma frente ambientalista de mais de 200 deputados, mas, na hora do voto, contamos com uns 40 ou 50 deles. Por outro lado, a frente ruralista também não está com essa bola toda. Tentaram tirar as restrições ambientais da lei de regularização fundiária, e perderam de 190 a 90 na Câmara.

Não sou sectário em relação à grande agricultura. Eu me identifico com a pequena produção, acho que são nossos aliados principais. Agora, eu tenho uma tradição de diálogo com a grande produção. Tivemos um acordo com [o setor] da soja - a Moratória da Soja. Um mês atrás fizemos um balanço e eles cumpriram o acordo em 97%, ou seja, a soja deixou de ser problema de desmatamento da Amazônia.

O que está fora de controle? A pecuária. Quase fechamos um acordo com a Abiec (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes). O presidente, Roberto Gianetti da Fonseca, esteve aqui três vezes. Quando começou a crise e quebrou o [frigorífico] Independência, eles roeram a corda do acordo. Só que a sociedade reagiu. Agora os supermercados estão pregando boicote - Wal-Mart, Pão de Açúcar. Até a Adidas não quer mais comprar couro para tênis de pecuarista que desmata a Amazônia. Acho isso muito bom. O bom fiscal é o povo consciente, o consumo consciente.

Globo Amazônia - O presidente da Abiec argumenta que é difícil para os frigoríficos controlar a origem do gado que compram. E ele aponta que o governo não ajuda a criar uma forma de rastreamento.

"A pecuária hoje é o maior agente de desmatamento da Amazônia."


Minc - Não é verdade que eles não sabem as fazendas que desmatam, porque no site do Ibama tem todas as fazendas embargadas. O que dizem é que há tantas fazendas embargadas, que teriam problemas em romper com grande parte de seus fornecedores.

O Conselho Monetário Nacional (CNM) aprovou um pacote de apoio aos frigoríficos. Até aí tudo bem: uma atividade importante deve ser apoiada. O BNDES e todos os bancos públicos assinaram conosco um protocolo verde pelo qual estão impedidos de financiar quem desmata. Fizemos um decreto que diz que o frigorífico que compra carne de uma fazenda que desmata a Amazônia é co-responsável. Por isso, se ele não desmata, mas compra carne de quem desmata, não pode receber um tostão de crédito do BNDES.

Com esse boicote dos supermercados e dos consumidores, eles vão entrar na linha, como todos os setores têm que entrar. A pecuária hoje é o maior agente de desmatamento da Amazônia e quero dizer aos que representam este setor que entrem na linha ou vão se dar mal.

Globo Amazônia - Ainda assim, a maioria das multas ambientais não é paga e temos casos de fazendas embargadas que continuam produzindo, com milhares de cabeças de gado, e vendendo para grandes frigoríficos. A fiscalização ambiental não consegue acabar com esse tipo de impunidade?

Minc - Estou há um ano no ministério. Os dados apresentados em reportagens recentes se referem ao período 1997 a 2006. Desde o primeiro dia em que entrei, escolhi o combate à impunidade como a linha-mestra do ministério. O que fizemos? Primeira coisa: cortar o crédito dos desmatadores. Segundo: decreto de crimes ambientais. Em vez de esperar o processo judicial, em que o cara enrolava a multa por cinco anos, a gente pega a madeira pirata, leiloa, e usa o dinheiro para empregar aqueles estavam trabalhando nas serrarias e carvoarias ilegais, para não ficarem desempregados e desmatarem 5 quilômetros adiante. Triplicamos a fiscalização. Criamos com o Ministério da Justiça a Coordenação Integrada de Combate aos Crimes Ambientais. Antes eu não podia convocar a Força Nacional para operações. Hoje posso. Já participei diretamente de 22 operações na Amazônia, todas com prisões, apreensões, embargos e leilões.

Globo Amazônia - O senhor participou pessoalmente de 22 ações de fiscalização. O Globo Amazônia acompanhou a Operação Caapora, em Nova Esperança do Piriá (PA). Foram fechadas 13 madeireiras ilegais no município e a população parecia decepcionada com o fato de o senhor ter visitado a cidade por cerca de uma hora junto com jornalistas, mas não ter falado à população local sobre o o encerramento da principal atividade econômica dali, ainda que ilegal.

Minc - Em primeiro lugar, estive três horas na cidade. Discuti com o prefeito, assinei um documento com ele e uma parte do dinheiro obtido com a venda da madeira ilegal foi para empregar essas pessoas que estavam em atividades ilegais. O prefeito esteve aqui e incluí, a seu pedido, esse município na Operação Arco Verde.

É muito fácil eu ficar no ar condicionado, em Brasília, dizendo faça isso, faça aquilo. Outra coisa é ir ver a dificuldade, que as pessoas estão lá na ponta, que o aparelho de comunicação não funciona, que não chegou a diária, que estão picados de mosquitos, que o carro do Ibama está crivado de balas. É importante para dar moral para a tropa. Além disso, para levar a imprensa e dar visibilidade - mostrar quem está combatendo o desmatamento e a impunidade, e a cara dos donos de serrarias e de fazendas que estão invadindo e desmatando.

Globo Amazônia - Ouvimos de funcionários do ministério que já ganhou até o apelido de “Indiana Minc”. O que acha disso?

Minc - Os apelidos são os mais variados. Como deputado estadual fiz muitas leis, mas sempre gostei muito da ação direta. Descobri que a maior parte das leis que fazíamos ninguém dava bola. Ninguém lê Diário Oficial. Então eu ia para as portas das fábricas com lixo químico simulado e dizia para cumprirem a lei do lixo químico. Fiz uma lei que obrigava os hotéis e motéis a darem três camisinhas a cada casal. Coloquei uma “camisona” de 18 metros no obelisco da Avenida Rio Branco [no Rio]. É claro que isso tem um lado folclórico e midiático assumido, mas, por outro lado, as pessoas percebem exatamente do que estamos falando. Ninguém sabia que tinha a lei da camisinha. Depois que botamos uma de 18 metros no obelisco, todo mundo passou a saber.

Globo Amazônia - Então, o senhor é um ministro midiático assumido?

Minc - Absolutamente assumido. Não tenho vergonha do que faço. E aquilo que sai no Diário Oficial e ninguém lê, ninguêm fica sabendo. O Ibama faz 300 operações por mês e a imprensa não cobre. Quando vou, há uma cobertura.

Globo Amazônia - Há um grande debate em torno da recuperação da rodovia BR-319, que liga Porto Velho a Manaus, mas que está intransitável em praticamente metade dos seus cerca de 800 quilômetros. A obra está prevista no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), mas ambientalistas temem que, por passar por uma região ainda intacta de floresta, pode abrir uma nova frente de desmatamento. Se dependesse do senhor, esta obra seria feita?

Minc - Minha opinião pessoal é contrária. Acho que, do ponto de vista do meio ambiente, a melhor solução é a recuperação da hidrovia do Rio Madeira. Agora, eu não sou ministro dos Transportes, nem governador do Amazonas, tampouco presidente da república. O governo querendo fazer a rodovia, minha posição passa a ser adotar todas as medidas para que ela não vire uma estrada da devastação da área mais preservada da Amazônia. Não posso permitir que a BR-319 vire uma segunda versão da Cuiabá-Santarém (BR-163, rodovia que, quando criada, acelerou fortemente o desmatamento no Pará).

Foi estabelecida uma série de condições muito rígidas para cada etapa [do licenciamento] (foi exigida a criação de mais de 100.000 km² de reservas, além de postos de controle do Exército e da Marinha ao longo da rodovia). Se isso tudo for feito antes da licença prévia, posso garantir que o nível de desmatamento será mínimo. Por pressão política, não sai licença. Ou se cumpre tudo, ou ela não sai.

Globo Amazônia - Na última sexta-feira, a revista “Science” trouxe um artigo que compara o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de municípios amazônicos em diferentes estágios de desmatamento. A principal conclusão é que os municípios totalmente desmatados apresentam indicadores de renda, escolaridade e expectativa de vida similares àqueles ainda muito conservados. Somente aqueles que estão no meio do processo de devastação apresentam algum ganho, ou seja, depois que a floresta é consumida, vem a pobreza novamente. Como fazer para quebrar esta busca pelo ganho com a floresta?

Minc - O estudo é muito bem feito. Podemos comparar [o desmatamento] com a atividade de mineração. Tira-se o ouro todo. Quando acaba, todo mundo fica pobre e vai embora. Sempre dou o exemplo da Finlândia, uma economia florestal de alto IDH que faz manejo florestal (exploração planejada da floresta, que permite que ela se recupere). Ela exporta móveis para o mundo inteiro e tem hoje a mesma cobertura florestal que tinha há cem anos. É possível fazer isso, mas não é o que se faz na Amazônia, onde a pessoa entra em terra que não é dela, não paga pela terra, não assina carteira, não paga multa e ri do nosso nariz. Hoje é mais fácil fazer a coisa errada que a certa. Temos que inverter esta equaçao econômica. Temos que impedir que o criminoso ambiental enriqueça com o produto de seu crime.

Por Dennis Barbosa, do Globo Amazônia - 19.06.2009
Fonte: G1 - Via Vista-se